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O que é Fofoca

Fofoca. De tão comum, a tendência é julgá-la natural, absolutamente contingente. O passo seguinte é aceitá-la, consentir com ela… Mas até que ponto há uma medida aceitável para as fofocas? É possível — verdadeiramente — viver sem elas? E como lidar com a fofoca no trabalho?

Tão sutil quanto eficaz, ela é capaz de arruinar relacionamentos e destruir carreiras.

Assim é. Oculta aos olhos como a conspiração de um formigueiro capaz de destruir uma árvore frondosa de um dia para o outro sem ser notado, e ao mesmo tempo avassaladora como uma tempestade, com poder para mudar o curso das vidas das pessoas e, sem exagero, mudar a história.

Como lidar com ela? Como ela funciona?

A incidência do fenômeno é inversamente proporcional a quantidade de estudos sobre o tema. Não se encontram levantamentos sobre seu impacto financeiro, mas, que ninguém se engane: uma de suas características mais peculiares é quão nos persuade desacreditar de sua força e subestimar o seu poder.

Pode acontecer na forma de uma pergunta — “O que você acha a respeito do modo como anda trabalhando a pessoa X?” —; na comparação entre pessoas — “Antes, quando éramos liderados pela pessoa Y…” —; no juízo velado a respeito de uma pessoa a partir da descrição de algum fato — “O projeto (sob responsabilidade da pessoa Z) não lhe parece com graves problemas conceituais?…”. Seja lá qual for a forma com a qual seja disparada, uma vez em curso, é como se fosse um ser real e autônomo, dotado de vida própria: impossível detê-la até que suas ondas atinjam seu alvo.

Tudo começa com um ímpeto, cujas razões se verão mais adiante. O processo tem o seu início quando o autor da fofoca aborda um co-autor em potencial e procura se certificar, por meio da emissão de uma série de sinais, que, caso dispare a fofoca, ela será acolhida em segurança… Se o receptor não opuser resistência ou, ao menos, expressar consentimento, está dado o sinal verde: ambos passarão a adotar na linguagem verbal e não verbal um curioso “tom de justiça”, quer dizer, um tom dramático equilibrado e ponderado, próprio das pessoas que “estão com a razão”. Daí por diante, toda vez que a narração for da própria voz, ela será serena e segura e, toda vez que a narração for da voz da pessoa de quem se fala, a voz será irritante e carregada de culpa.

Quem dispara a fofoca precisa se certificar que o seu ouvinte se tornará seu interlocutor e, portanto, seu cúmplice. Tornar o ouvinte um co-autor da fofoca é uma peça essencial do jogo e serve para defender o autor de eventual infidelidade pela parte de seu ouvinte, criar uma sensação de impunidade e estabelecer um vínculo entre os envolvidos. À medida que o autor da fofoca avançar na sua empreitada, aumentará o ritmo da fofoca na proporção dos sinais de segurança e permissão emitidos pelo seu ouvinte, que vai do consentimento à aceitação, da aceitação à acolhida e da acolhida à participação efetiva do cúmplice como co-autor, progredindo a fofoca para um nível cada vez mais intenso e potencialmente destruidor. Nessa toada, o que, de início, se apresenta aparentemente apoiado em fatos e acontecimentos, à medida que avança sem resistências, se torna cada vez mais evidente estar apoiado sobre emoções e juízos de valor.

Consideremos, por exemplo, a pessoa A. Reconhecendo a evidência de que trabalha em equipe e que está, como todos os outros, em um mesmo barco, do lugar onde pode ver as coisas e com base nos fatores que domina, tem a nítida sensação de que a pessoa B está agindo de modo inadequado. Ela acredita que isso incide sobre sua segurança, suas perspectivas ou valores, seus planos ou talvez os resultados sobre os quais é diretamente responsável. Também acredita que a equipe inteira será atingida e poderia falar diretamente com a pessoa B, mas, infelizmente, não se sente confortável. Talvez a estrutura hierárquica não a autorize, talvez não se sinta competente para fazê-lo ou — o que é mais comum — talvez tenha medo ou receio de não ser acolhida por B, ou pior: o temperamento de B dá todos os sinais de que, caso seja abordado, devolverá uma bela patada. Então, para que o barco não afunde, resolve falar com C para que este fale com B em seu lugar e obtenha os resultados desejados.

O exemplo acima, aparentemente ingênuo, raramente é identificado por fofoca, embora também o seja. Ainda que a intenção seja honestamente positiva, o fato de A ter envolvido um terceiro (C) ao invés de buscar diretamente a pessoa B, torna toda a situação uma fofoca, não importa a retidão de suas intenções ou o desfavor das circunstâncias. No caso proposto, nem se cogita da retidão das intenções de A. Toda coisa poderia ser ainda mais grave se o que movesse A a falar com C fosse na verdade alguma resistência afetiva que sentisse em relação a B, (talvez se sentisse ameaçado, talvez desejasse revidar em B alguma agressão que acreditasse ter sofrido, mas não é o caso). O exemplo proposto é até brando, pois a intenção original de A é o bem de toda a equipe.

O que torna a fofoca uma fofoca não são as intenções de seu autor,
mas o modo como se processa e os seus efeitos.

Porém o fato de A não ter enfrentado as possíveis resistências de B e lhe falar diretamente, passa a criar um segundo e novo problema. Se antes a questão era o fato de B não estar agindo da forma correta (essa era apenas uma percepção de A e não uma certeza absoluta e incontrovertível), agora, o segundo problema passa a ser a ruína da credibilidade de A em relação a B e todas as consequências que a falta de confiança num relacionamento poderia ter. O que, de início, era apenas uma percepção negativa localizada, se desdobra num problema muito mais grave.

Na tentativa de preferir não arriscar a integridade da imagem que as outas pessoas lhe reputam, a fofoca acaba construindo sobre o seu autor uma percepção totalmente diversa: a de uma pessoa com “falta de caráter” e com “falta de integridade”.

A observação atenta do próprio comportamento é mais que o suficiente para que reconheçamos que o impulso por buscar saídas alternativas aos confrontos francos e diretos é muito comum, uma espécie de tentativa de auto proteção de curtíssimo prazo.

Para não enfrentar o confronto e a abordagem franca e direta a respeito de um problema, a saída acaba sendo o artifício dos escapes laterais.

Frisa-se: as pessoas costumam desculpar a si mesmas e confortar-se moralmente no argumento de que sua intenção é positiva. Na verdade, é o modo como se faz e os seus efeitos que tornam a fofoca uma fofoca e não as intenções que a motivaram.

É claro que há situações nas quais o objetivo é francamente arruinar uma reputação, como forma de agressão, a fim de banir o “inimigo” ou eliminá-lo, por exemplo, por meio de jogos políticos que levem à demissão de um colega. Mas a mesma coisa pode ser feita por uma motivação menos condenável (!?): “se aquela pessoa for embora, será um grande bem para todos nós!”.

No entanto, as formas mais correntes de fofoca são fundadas em percepções fragmentadas, parciais da realidade, ou na fragilidade e na covardia, mas raramente na consciente obstinação por praticar uma maldade.

Na maioria das vezes o autor quer somente criar uma vinculação afetiva com o seu ouvinte, estabelecer uma relação de proximidade pela cumplicidade ao abordar determinada situação, tudo para expressar o quanto são próximos nos juízos que fazem sobre as coisas. Há muitos casos em que o fofoqueiro quer somente afinar-se com uma pessoa ou um grupo, expressando alinhamento e sintonia ou angariando aceitação, dando provas de fidelidade à perspectiva do grupo. Há casos em que o autor da fofoca quer sobrepor-se ao alvo, apresentando-se mais apto, mais “adequado” e mais “alinhado com a autoridade”.

Há sem dúvida, situações nas quais o autor da fofoca não domina se quer suas próprias motivações para fofocar, sem conhecer claramente os motivos ocultos, aqueles escondidos, inconscientes, que lhe instigam a fofoca.

Em geral, na vida adulta, a fofoca não se distancia da realidade dos fatos, ao contrário, se apóia sobre eles, reconstruindo-os por meio de sutis articulações e reconstruções de palavras, olhares e tons de voz. Pode parecer um comentário bem humorado, cheio de ironia e aparentemente desinteressado ou pode ser uma “avaliação estritamente profissional” de um colega para um chefe, referindo-se a um colega em comum.

Os efeitos podem ser muitos: no ambiente profissional a fofoca é a principal razão para a desagregação das equipes, a diminuição da produtividade e da qualidade dos resultados. Tudo poderia se resumir numa única e definitiva expressão: o fim da confiança mútua.

Tanto quanto a conduta do autor, a conduta do ouvinte tem uma importância essencial. Tanto é verdade que o ouvinte saltará de sua condição de ouvinte para a condição de co-autor da fofoca assim que consentir com a emissão dos primeiros sinais da intenção do autor… O seu consentimento, por mais discreto e aparentemente despreocupado que possa parecer, não perde sua natureza de uma decisão consciente para a adesão a um convite — e o convite, por mais discreto que possa parecer, é sempre claro o suficiente para que se compreenda sua funesta finalidade.

Ao primeiro sinal,
o ouvinte pode se recusar a entrar no jogo.

Se um profissional está a ponto de disparar uma fofoca, um comentário do tipo “Ele não está fazendo um ótimo trabalho?” pode ser suficiente para impedir o ataque. Se o fofoqueiro insistir com sarcasmo do tipo — “Sim, claro, ele está fazendo um ótimo trabalho mesmo…” —, a fofoca provavelmente perderá a sua força se você, de forma agradável, expressar uma saudável ingenuidade ou um franco desalinhamento  com esse tipo de conduta.

O ouvinte pode não só recusar a proposta de aderir a fofoca, mas pode, inclusive redimi-la, invertendo a dinâmica do jogo para um processo educativo totalmente diferente: “A pessoa B? Acredito que ela está realmente empenhada em fazer o seu melhor… Se você pode contribuir com o progresso dela, eu acho isso excelente! Faça você mesmo a abordagem desse assunto com ela da melhor forma possível! Muito bom!”.

A sociologia poderia muito bem se ocupar do fenômeno: alguém se desviou do padrão e por isso se torna objeto de comentários dos outros que, ao invés de falarem diretamente ao que se desviou, falam entre si, ao seu redor. Uma forma de proteção policial dos padrões, punindo aos desviados com a pena dos comentários a seu respeito. Um discutível ritual para afirmar a solidariedade do grupo.

Estruturas hierárquicas complexas ou uma liderança ruim também podem potencializar as fofocas. Os próprios RHs — as equipes de Gestão de Pessoas ou os Departamentos de Recursos Humanos — em sua luta vã contra a fofoca e as ondas de boatos que rapidamente se espalham pelos corredores, ao se oferecer como espaço para que as pessoas possam se sentir ouvidas ao falar de suas tensões, ao se propor como mediadores de conflitos, acabam por multiplicar a fofoca, elevando as tensões ao invés de abrandá-las.

Para que o centro da autoridade não seja quebrado e para que a liderança assegure a força e a efetividade de seu poder e a capacidade de execução de suas equipes, pessoas são utilizadas como pontos capilares de recepção de informações para fazer fluir informações sobre humores e boatos, da base ao topo da pirâmide, para que a liderança responda ou se antecipe por meio de estratégias de endomarketing ou contra-informação.

Sem falar nos líderes de equipes que “dão corda”, que recebem a todos os momentos profissionais às portas fechadas, procrastinando decisões executivas claras — e alinhamentos francos e honestos entre todos.

Há ainda os multiplicadores de informação vazia, que se sentem confortáveis em somente requentar pedaços de informação que, sem a menor culpa, apenas passam adiante.

A seu favor, os fofoqueiros contam com a vantagem de que provavelmente não serão confrontados. Os confrontos e as acareações, ainda que concluam pela inconsistência das fofocas, precipitarão todos os seus efeitos, sobretudo as rupturas públicas e as quebras de confiança. Os fofoqueiros também podem contar com a negligência dos envolvidos na empreita por checar a autenticidade das informações e a impossibilidade de encontrar testemunhas capazes de confirmá-las. Também a velocidade da expansão das fofocas é sempre maior que a de sua anulação, contenção ou desqualificação, e o fenômeno não só porta o veneno da radioatividade mas também é mutável, dinâmico, adaptável como um vírus.

É só pensar no famoso caso da Capitu, de Machado de Assis. Não é exatamente uma fofoca mas serve para ilustrar a sua natureza. Uma vez disparada, a verdade ou a mentira de seus fundamentos passam a não mais importar. Os fatos passam a não ter absolutamente nenhuma relevância diante de seus efeitos devastadores. Diante da ruína da credibilidade do alvo da fofoca, as evidências perdem sua força persuasiva e os fatos são substituídos por suas interpretações.

Quando não se confia mais, não importa o que aconteça ou do que se trate, as coisas nunca mais serão as mesmas.

Assim é a fofoca.

Por falar nisso, não sei se já te contaram, mas…

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3 Respostas para “O que é Fofoca

  1. Milton Reganin

    Pois sim
    meu querido primo,
    já fui vitima deste jogo.

    Sei perfeitamente como funciona…

    Muito bem colocado,
    vc é um grande mestre
    na arte de expor as palavras,
    parabéns.

    Grande abraço
    e um bj
    em seu
    coração.

  2. Mirian Reganin

    Realmente, uma vez colocada a incerteza de um fato ou de uma situação, a certeza ficou truncada, igual a um jarro de cristal quebrado e consertado com adesivos ou colas. As marcas permanecem…

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