“Advogado não presta”

“Os advogados não valem nada”. De fato, a advocacia está cada vez menos prestigiada. Este é o senso comum. Uma sensação de ser verdade, embora não se possa comprovar, demonstrar ou controverter. “Obtusos”, “interesseiros” e “gananciosos”, o desprestígio da advocacia, em parte, reside nos péssimos testemunhos que alguns advogados dão de si.

Porém, o repertório de ironias inspirados na advocacia — e que faz a sua fama — vai muito além do mal de que são capazes. Tem sua razão de ser na incompreensão causada pelo fato do advogado ser — e dever ser — absolutamente parcial nas disputas ou discussões judiciais, em favor dos clientes que defende.

Basta o exame de um caso qualquer. Quanto mais for dramático o caso, quanto mais carregado for nas tintas, talvez um homicídio bárbaro ou covarde, por exemplo, mais dramaticamente necessária se revela a advocacia. Imagine-se, como se diz usualmente, um “assassinato”: um advogado assume o caso e, contra todas as opiniões, compromete-se a permanecer “ao lado” do acusado… O faz, não porque acredita, pessoalmente, em sua causa; não porque acredita na qualidade de suas provas ou porque é amigo do réu que acompanha… Não. O advogado se põe “ao lado” simplesmente porque ninguém mais está. A imprensa, por suas conveniências e interesses, culpa o réu. A opinião pública, por sua paixão e natureza, também culpa o réu e, se o réu for realmente culpado, o próprio réu já se condenou pelo que fez. Quando ninguém mais estiver “ao lado”, o advogado ainda estará lá. E se for um profissional competente, servirá, no mínimo, para legitimar ainda mais a decisão pela condenação e valorizar o curso da justiça: tornará o processo reto e equilibrando, resistindo aos excessos impostos pela pressão social, de modo a preservar o equilíbrio da decisão judicial.

Mas e se o cliente não for culpado? Caso o acusado seja atacado injustamente, a última, se não a única proteção dada ao inocente será a parcialidade de seu advogado. Nesse caso, a verdade pode até estar do lado do inocente. Mas as provas, a opinião pública e a imprensa, podem estar contra ele. A família talvez o abandone e, — pode acontecer—, até mesmo o inocente abandone a si mesmo. Não, porém, o advogado.

Este é o ponto: estar “ao lado” não é a justiça, mas é uma condição essencial para ela.

Somente o exercício competente da advocacia, (confrontada pela advocacia da outra parte), equilibrada pela ação do juiz, pode tornar a justiça algo humanamente possível.

7 respostas para “Advogado não presta”

  1. Alexandre Ramos

    Esclarecedor, Paulo.

    Ao final, veio-me a lembrança a célebre frase – Pode até ser ruim com eles, mas seria muito pior sem… Retiro os “da classe”, da minha lista dos não gratos.

    Agradecido!

  2. Otoney Alcântara

    O artigo é interessante… A única coisa que diria é que o advogado fica “ao lado” por dinheiro, como os sofistas gregos. O fato é que está postura legitima o sistema. Como dizia um grande sábio que esqueci o nome: “A democracia é o pior dos sistemas, fora todos os outros”. Neste sentido a existência do advogado é um bem para a democracia…

  3. Caro Paulo:

    Muito bom o seu artigo!

    Em rápidas linhas você conseguiu evidenciar o quão expostos pela mídia estão os advogados, sobretudo, os bons advogados que, no estrito cumprimento do dever e à luz dos princípios da Ampla Defesa e do Devido Processo Legal, patrocinam seus clientes com a imparcialidade que todos esperam em qualquer situação da vida real.

    Defender este ou aquele, ainda que estejam envoltos sob aparência de “culpa”, é mister do Advogado – e só dele – , com vistas a perfeita adequação do processo e a eventual decisão que restabeleça o equilíbrio entre as partes envolvidas, inclusive aquela que pune o próprio patrocinado, contudo, sob a rígida e inafastável equidade e razoabilidade que só o advogado consegue impor ao juiz, tendo em vista a sua formação e preparo profissional.

    É assim que, desde que o mundo moderno se relaciona, a JUSTIÇA é perseguida. Com ênfase, pela atuação dos advogados, com vistas à prevalência da PAZ SOCIAL.

    Parabéns colega!

  4. Muito bom o texto, Paulo.

    Seria importantíssimo que todos o lêssem, pois você conseguiu trazer à tona o verdadeiro papel do advogado em nossa sociedade. Entender isso é de vital importância, principalmente no Brasil, onde muitos indivíduos são condenados injustamente. Nos EUA, por exemplo, é preciso provar que o réu é culpado, enquanto em nosso país, o réu é quem deve provar sua inocência.

    Muita coisa precisa mudar, não é mesmo?
    Ricardo Cruzeiro

  5. Samuel Mendonça

    Excelente reflexão, Paulo!

    Advogado não presta?

    Eu poria um ponto de interrogação,
    para ser fiel ao que você escreveu… :-)

    Um abraço,
    Samuel Mendonça

  6. Muito bom o texto, Paulo.

    Seria importantíssimo que todos o lêssem, pois você consegue trazer à tona o verdadeiro papel do advogado em nossa sociedade.

    Entender isso é de vital importância, principalmente no Brasil, onde muitos indivíduos são condenados injustamente.

    Nos EUA, por exemplo, é preciso provar que o réu é culpado, enquanto em nosso país, o réu é quem deve provar sua inocência…

    Muita coisa precisa que mudar, não é mesmo?

    Ricardo Cruzeiro
    Artista Plástico

  7. patriciabernecule

    Olá Paulo,

    Há tempos não lia seus posts…

    Parabéns por este. Simples e picante ao mesmo tempo.

    “Bora” pensar sobre o assunto agora… Este é o efeito; nos obrigam a pensar no assunto por um ângulo diferente…

    Grande abraço.

    Patrícia B.

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